2 de dezembro de 2009

Metade

Nesse meio perigoso ao qual me esponho,
espinhos ganho: delícias dolorosas e voluptuosas...
quase amor.

26 de novembro de 2009

É um amor de silêncio onde o destino é o deus da sorte,
onde o agora penetra e me move,
a viver esse amor (simples) e viver.

22 de outubro de 2009


Procurei a liberdade exaustivamente; mas no fim do quase compreendi que a liberdade era, acima de tudo, a minha prisão.
Ao lutar contra as correntes do sólido, descobri que nada fiz para ser livre... Apenas me livrei do possível tentando enganar - a mim mesma - de que era majestosamente corajosa. Descobri a covardia, mas permaneci com ela como uma mãe alimenta o filho em seu ventre. E alimentei em mim uma espera incansável pela janela do ir em frente, mas apenas quando fosse infinitamente livre. Só não olhei no mistério profundo do eu que havia conquistado pelo meu caminho.
Aprendi a achar as coisas óbvias. Aquilo que é simples nem sempre é fácil. A simplicidade está um passo a frente do que é difícil. Primeiro luta-se violentamente contra as górgonas e depois, com espada na mão e sangue nas roupas descobrimos que o que desejamos era o que já possuíamos.
Há um intenso momento de abatimento. Descobre-se então que permaneceu segundos exagerados dando murros em ponta de faca afiada.
Decepcionei-me: a liberdade não pode ser tocada, ela vive apenas dentro de mim. A liberdade é o que eu penso.

17 de outubro de 2009

A Descoberta do Irremediável


Era uma vez uma criança que estava além de si mesma e não sabia. A infância é inalcançável.
E só de olhar o céu e ver os pássaros voando, ia para terras distantes onde o céu era próximo ao chão. E de imaginar-se sentindo sentimentos inexistentes: sentia, sorria e os dias passavam rápidos que dormir era apenas uma preparação boba para o amanhã. Dormir era um qualquer que deveria ser desprezado, era perca de tempo.
Sabia - sem querer - que enquanto criança poderia tudo, pois os grandes eram chatos demais. Seu grande medo era o tempo de crescer. Porque um dia poderia crescer tanto que talvez não coubesse mais dentro de sua casa e estaria infinitamente perto das estrelas onde talvez pudesse ver Deus dizendo: "- Vá dormir, amanhã você irá acordar cedo."
Mas falava. Não sei explicar se essa criança era vazia a ponto de falar, falar e falar sem nenhum receio dos pensamentos emoldurados por corpos imponentes. Para ela, os rostos eram apenas rostos, sem consequência de bonito ou feio e por essa falta de medo falava sem saber do tanto. Mas olhando por esse lado, esse ser ingênuo tinha acima de tudo uma visão em carne viva de quem não espera. Porque esperar era como dormir, desnecessário e bobo demais.
Um dia recebeu em suas mãos um álbum com fotografias tiradas no colégio e ansiosa - sim, era uma menina - folheou voraz as fotos, e então teve o maior susto de toda sua vida.
Um susto que, de tão súbito e decepcionante fez seu coração sangrar e talvez, sangre até hoje.
Viu-se enfim como verdadeiramente era, sem as fantasias intensas de sua imaginação colorida à óleo sobre tela: era uma criança - mas ainda? - indefesa e comum demais. Uma criança que talvez apenas inventasse histórias bobas e desnecessárias como o sono. Não enxergou na fotografia aquela mulher ou menina de profunda beleza que brilhava como o sol e as flores. Não enxergou sua alma grandiosa, apenas um corpo pequeno de menina que chora por medo de escuro. E se assustou sim! Uma dor impossível de guardar, que até chorou...
A partir daquele dia ela entendeu que pensava. Essa era uma passagem para o mais oculto que existia em seu interior; pensar foi o seu maior crime contra si mesma, foi um tiro contra suas terras distantes de céu próximo ao chão: estava limitada, tinha um corpo e um rosto todo seu. Mas e os sonhos? Onde colocaria todos os seus sonhos? Era tão pequena...
Muitos anos depois ela descobriu que assim como existe um rio longo extremamente raso, ela poderia permitir-se a ser uma menina pequena com alma profunda. Uma alma de quem chora, de quem ri e de quem ama violentamente todos os sonhos que tem.

11 de setembro de 2009

Amor que ofende e que não se perde


Os dias pareciam estar em pura cólera e as tardes estavam secas, como as tardes de domingo em que apenas um beijo nos salvaria de um sentimento tão áspero e selvagem. Mas o meu único fazer foi vê-lo ao longe.
Não quero fazer do amor algo tão comum: o amor me é uma ofensa. E estou ofendida por saber de sua grandeza. O seu amor me devorou e eu não tive direito à palavra.
Foi pela manhã, quando eu apenas me contentei em entender que havia algo tão profundo que eu não alcançava mais. O sol nascia entre a cortina branca, e os lençóis ainda eram cheios de nós. Mas essa ofensa era tão grande que dentro do meu coração não cabia mais amor, enfim... Era hora de partir.
- Tchau, estou indo embora.
Como quem sabe de todas as coisas da vida, você apenas olhou-me com seu olhar de quem não sente. Porém sentiu. Por dentro de seus olhos tão amenos eu vi a grandeza de tua alma; era imenso o meu amor por você, mas ainda amo o que consiste em uma pequena palavra: viver.

E fui vivendo, fui esquecendo sem deixar de esquecer.

Ainda que distante senti seus passos; fechei os olhos e então o vi.
Me contentei em vê-lo, porque vê-lo era mais que obra de carinho aos olhos. Não sei porque fugi de todo esse mar tão salgado com ondas que levam... e levam. Essas ondas me levaram, me afogaram e me trouxeram de volta à vida. Foi um rito de passagem à nós: eu morri, mas senti a dor do nascer.
E agora, depois de tanto, você está aqui.
Ai que olhos que me amedrontam. Eu vivo a interpretar à todos, mas você é indecifrável e tenho certeza que deseja prender-me em teu forte mar de sentimentos. Quer sim, que eu diga que lhe amo... Mas nunca digo: como eu, você sabe ver a alma dos olhos e consegue ver o quanto estou imensa.

"Contemplava extasiada o céu cor de anil. Eu fiquei compreendendo que eu adoro o meu Brasil. O meu olhar posou nos arvoredos que existe no inicio da rua Pedro Vicente. As folhas movia-se. Pensei: elas estão aplaudindo este meu gesto de amor a minha Patria. (...) Toquei o carrinho e fui buscar mais papeis. A Vera ia sorrindo. E eu pensei no Casemiro de Abreu, que disse: "Ri criança. A vida é bela". Só se a vida era boa naquele tempo. Porque agora a epoca está apropriada para dizer: 'Chora criança. A vida é amarga'."

Carolina de Jesus. Quarto de despejo: diário de uma favelada.